Eu estava no ônibus com meu irmão Caio quando percebi que ele segurava um papel dobrado. Nossa avó tinha escrito nele o nome da parada onde deveríamos descer. Eu conhecia o caminho e achei aquele cuidado exagerado. Caio vinha pela primeira vez sozinho comigo. Enquanto eu olhava a rua, ele alisava o papel e comparava as letras com as placas. No meio do percurso, o ônibus virou por uma rua diferente. Havia uma obra no caminho habitual. O motorista explicou que duas paradas seriam feitas em outros pontos, mas não disse que a nossa tinha mudado. Fiquei em silêncio para não mostrar minha dúvida. Caio percebeu e perguntou se já estávamos perto. Respondi que sim, embora não tivesse certeza. Ele abriu o papel e foi falar com o motorista quando o ônibus parou. Mostrou o nome escrito e perguntou onde deveríamos descer. O motorista indicou a próxima parada e explicou de que lado começava a rua da nossa avó. Quando descemos, Caio guardou o papel. Eu quase pedi que me desse a anotação, mas disse apenas que seria bom conservá-la para a volta. Ele colocou a mão no bolso e sorriu. Aquele pedaço de papel não tinha um mapa do mundo. Tinha só um nome, mas o nome certo para a pergunta que nos faltava fazer. Na casa da nossa avó, Caio contou o desvio. Eu contei a pergunta. No caminho de volta, deixei que ele escolhesse quando consultar a anotação. Conhecer um percurso não me tinha preparado para cada mudança; aceitar uma dúvida havia nos ajudado mais que escondê-la.