Na rua da minha escola, a oficina de dona Vera tinha uma janela baixa. Na ida, eu via aparelhos abertos sobre a bancada; na volta, quase os mesmos. Chamava aquilo de museu das coisas quebradas. Meu pai achava graça do apelido, mas continuava levando ali o ventilador quando ele fazia barulho. Eu preferia passar depressa, antes que alguém me pedisse ajuda. Um dia, a professora pediu que observássemos um trabalho do bairro. Escolhi a oficina porque ficava no caminho, não porque esperasse descobrir alguma coisa. Dona Vera deixou que eu acompanhasse um rádio. Testou o cabo, separou peças e anotou o que ainda precisava verificar. Entre um teste e outro, atendeu duas pessoas. Meu caderno recebeu uma conclusão apressada: serviço interrompido. Na segunda visita, o rádio permanecia no mesmo lugar. Antes que eu apontasse isso, o dono chegou com um aparelho parecido, emprestado por um vizinho. Vera comparou as peças. O defeito estava num componente pequeno, não no cabo que eu havia fotografado. Ela disse que poderia trocar a peça, mas precisava perguntar ao cliente se o custo compensava. Fechou o rádio e aguardou a resposta. Eu queria registrar um antes e um depois, de preferência no mesmo dia. A professora perguntou o que existia entre essas duas fotografias. Mostrei as notas, que pareciam menos interessantes que as imagens. Foi nelas, porém, que encontramos testes, consulta ao dono e espera por uma decisão. Minha primeira conclusão cabia numa linha; o trabalho observado já não cabia nela. Na semana seguinte, o cliente escolheu fazer o conserto. Quando fui buscar a autorização para usar sua história no mural, Vera estava explicando a outra pessoa por que não recomendava reparar uma chaleira. Entendi que entregar um aparelho funcionando não era o único desfecho possível daquele trabalho. No mural, deixei espaço para a decisão do cliente e retirei a legenda que prometia mostrar uma transformação rápida. Hoje ainda reconheço alguns aparelhos na janela. Meu pai perguntou se o museu continuava aberto. Respondi que eu tinha aprendido a visitar a exposição devagar. Ele riu do mesmo jeito; desta vez, o apelido não significava, para mim, que ninguém estivesse fazendo nada.