Conto fictício. Quando minha tia me entregou o caderno de anotações de meu avô, achei que finalmente saberia como surgira a pequena feira de livros da nossa rua. Eu tinha escrito para o jornal escolar que ele a criara sozinho. A frase vinha de uma história contada em casa, tantas vezes repetida que eu já não distinguia a lembrança de quem tinha estado lá da lembrança de quem apenas ouvira. As primeiras páginas traziam listas de caixas, nomes de livros e um desenho de mesa. Na margem do desenho, li: “Perguntar a Lúcia se cabem duas mesas na garagem”. Mais abaixo, havia outra nota: “Samuel conseguiu falar com a escola”. Não aparecia uma explicação que reunisse os nomes. Fotografei as páginas e pensei que fossem pessoas chamadas depois de a ideia estar pronta. Minha tia encontrou um bilhete guardado na capa: “Sábado levamos as caixas. Se chover, Lúcia abre a garagem. A conversa de ontem deixou a feira de pé”. A letra parecia a do meu avô, mas minha tia não tinha certeza. Nenhuma data completa identificava o ano. Eu quis anexar o bilhete à matéria como a prova que faltava. Ela perguntou qual parte da minha frase ele realmente provava. Procurei Lúcia, que ainda morava no bairro. Ela se lembrava de discutir com meu avô onde conseguir espaço e de pedir ajuda a Samuel, que conhecia a escola. Disse que a primeira feira lhe parecia ter ocorrido num sábado de chuva. Não recordava quem tinha sugerido a ideia antes da conversa. Quando mostrei o bilhete, reconheceu a referência à garagem, mas não confirmou a letra nem o ano. Reescrevi a matéria: “As notas e uma lembrança de Lúcia mostram colaboração na preparação da feira”. Retirei a afirmação de criação solitária. Também não escrevi que os três tinham inventado a ideia juntos: isso preencheria uma lacuna com a minha preferência por uma história coletiva. Guardei as fotos completas, sem cortar as margens, e anotei as perguntas que continuavam sem resposta. No domingo, li a nova versão para minha tia. Ela disse que o avô aparecia menos heroico. Esperei uma censura, mas ela acrescentou: “E a rua aparece maior”. Voltei ao desenho da mesa. As notas que eu tinha tratado como enfeite nas margens agora sustentavam uma parte da reportagem. O caderno não me entregara uma origem pronta; tinha mudado o tamanho da pergunta que eu levava até ele.