Relato de um jornal escolar — situação fictícia. Para divulgar uma oficina de gravação de histórias, a equipe recebeu um recado falado de Jonas, participante do centro cultural: “A gente se encontra depois da aula. Quem quiser contar um causo, chega junto. Quem preferir escutar pode vir também”. A oficina era organizada por três pessoas, mas o áudio tinha apenas a voz de Jonas. O jornal publicaria um anúncio escrito e um trecho da conversa. Na primeira transcrição, uma estudante trocou “a gente” por “nós” e “causo” por “narrativa”. Achou que assim o texto ficaria mais adequado à escola. Outra colega observou que o anúncio ainda não dizia qual aula terminava antes da oficina nem indicava uma sala. Trocar palavras não resolvia essas faltas. A equipe decidiu perguntar os detalhes aos organizadores antes de publicar o convite. Jonas explicou que “causo” era a palavra que usava em suas rodas de conversa, mas que as pessoas poderiam contar experiências de vários tipos. Acrescentou que “depois da aula” se referia ao turno da tarde. Pediu que ninguém apresentasse sua fala como uma regra de participação: ele estava convidando, não definindo o que seria aceito. Os outros organizadores confirmaram que também haveria lugar para quem quisesse apenas ouvir. O anúncio final apresentou horário, sala e formas de participação, com assinatura da equipe organizadora. Usou “histórias e experiências” para explicar o convite a leitores que talvez não conhecessem o uso de “causo”. Separado do anúncio, um trecho identificado como fala de Jonas conservou “a gente” e “causo”. A equipe não tratou essa escolha como erro corrigido pelo anúncio nem atribuiu à voz dele a autoria exclusiva da oficina. Na leitura da prova, um colega propôs retirar do trecho a frase sobre quem prefere escutar, porque o anúncio já informava isso. A editora respondeu que, ali, a frase mostrava como Jonas dirigia o convite a interlocutores diferentes. Sua função não era apenas repetir um dado. A equipe manteve a frase e conferiu com Jonas os cortes feitos antes e depois dela, para não alterar o alcance do convite. Depois da publicação, os estudantes compararam a transcrição inicial, o anúncio e o trecho da conversa. Perceberam que adequar um texto exige considerar finalidade, autoria e informação disponível, não ordenar as formas de falar numa escala de valor. A edição tornou o convite mais preciso para quem procurava a oficina e preservou uma voz particular onde ela era apresentada como voz particular. Não concluiu que todas as rodas de conversa do bairro usavam as mesmas expressões.