Para o jornal da escola, nossa dupla decidiu entrevistar Dona Elza sobre a feira do bairro. Eu levei uma pauta de perguntas e Pedro, um caderno para anotar. Queríamos saber se a mudança para a praça tinha melhorado as vendas. Antes de sairmos, já tínhamos um título: Feira nova, vida nova. Ele cabia bem na primeira linha da página. Dona Elza ajeitou as caixas de temperos e nos ouviu. Disse que a praça tinha mais sombra, mas era mais longe do ponto de ônibus. Suas vendas variavam com a chuva e com o fim do mês. Quando perguntei se a mudança fora boa, ela respondeu: “Para quem vem a pé, pode ser. Para quem carrega sacolas no ônibus, ainda não sei.” Pedro anotou a primeira parte e me mostrou um sinal de aprovação. Eu já via nosso título impresso. Na volta, passamos pelo antigo local da feira. Um senhor esperava numa parada e perguntou onde ela estava funcionando. Explicamos o caminho. Ele olhou as duas sacolas vazias e disse que tentaria chegar antes de ir trabalhar. A pergunta dele não mostrava como todos os compradores se sentiam, mas me fez lembrar a parte da resposta que tínhamos deixado no fim da página. Ao organizar as notas, Pedro escreveu que a feirante aprovara o novo espaço. Li a frase em voz alta e ela me pareceu curta demais. Não por faltar um adjetivo: faltava o grupo para o qual a mudança poderia ajudar e a dúvida sobre quem dependia do transporte. Voltamos ao caderno e reescrevemos a fala, mantendo as duas partes. O título virou Praça nova, caminhos diferentes. No texto, contamos a vantagem da sombra, a distância do ônibus e a variação das vendas, sem escolher uma causa que a entrevistada não tinha escolhido. Depois enviamos a ela o trecho atribuído e perguntamos se estava fiel às suas palavras. A página ficou menos sonora que nossa primeira ideia. Quando a reli, porém, tive a impressão de que enfim cabiam ali as sacolas do senhor.