No início do ano, a professora pediu que escrevêssemos uma carta para nós mesmos, a ser aberta no último mês de aula. Eu descrevi um futuro organizado: notas melhores, menos atraso, coragem para apresentar um trabalho sem ler tudo. Fechei o envelope com uma linha firme, como se fechar fosse uma forma de confirmar o plano. Meses depois, minha rotina mudou. Passei a buscar meu irmão na escola e o ônibus que usava deixou de passar na rua de casa. Cheguei atrasado algumas vezes. Em compensação, aprendi a explicar trajetos e horários para ele, a conferir documentos e a pedir ajuda na portaria quando não entendia uma informação. Não incluí nada disso nos registros em que eu contava apenas quantos trabalhos entregara. Na semana de abrir as cartas, pensei em faltar. Imaginava encontrar uma lista de coisas que não tinha cumprido. A professora disse que poderíamos ler em silêncio e que ninguém precisaria mostrar a carta. Pediu apenas um comentário sobre o que a pessoa do início do ano ainda não sabia a respeito dos meses seguintes. Abri o envelope. A frase sobre coragem me fez rir: eu continuava nervoso nas apresentações, mas agora conseguia formular uma pergunta quando precisava. A frase sobre atraso me deixou desconfortável. Quis apagar aquela promessa, depois percebi que a mão que a escrevera não conhecia o caminho novo do ônibus nem o horário do meu irmão. A carta não era uma testemunha acusando; era uma conversa que chegara atrasada. No comentário, não escrevi que as dificuldades justificavam qualquer falta. Contei o que mudara e o que ainda precisava organizar. Pedi à professora ajuda para combinar prazos de um trabalho. Guardei a carta junto de um mapa de horários. Um papel mostrava o que eu desejava; o outro, o caminho que estava aprendendo a percorrer. Nenhum dos dois, sozinho, dizia tudo sobre o ano.