Minha avó conhecia o caminho até a casa de cultura por nomes que não apareciam no mapa do celular. Dizia para virar depois da venda de Seu Joel, atravessar onde antes havia uma árvore grande e seguir até o muro que recebia sol de manhã. Eu digitava o endereço e via uma seta limpa. Ela ouvia minha explicação e perguntava onde ficava a venda. Quando a escola pediu um registro de trajetos do bairro, pensei em entregar uma captura da tela. A professora pediu que também explicássemos para quem aquele mapa seria útil e que informações poderiam faltar. Decidi caminhar com minha avó, anotando as referências. A venda tinha virado farmácia; a árvore fora retirada, mas a calçada conservava um desenho circular. O muro continuava recebendo sol, embora no horário em que passamos estivesse na sombra. Na porta da casa de cultura, encontramos uma família procurando a entrada acessível. A seta do meu mapa levava à escada principal. Um funcionário mostrou o portão lateral e disse que sua abertura dependia do horário das oficinas. Minha avó guardou a indicação como guardava a antiga árvore: não pelo nome oficial, mas pelo que permitia fazer naquele lugar. Meu trabalho ficou com dois percursos descritos. Um apresentava ruas e número do prédio; o outro reunia referências do caminho, entrada lateral e necessidade de conferir seu horário. Não escrevi que um mapa era correto e o outro, errado. A captura ajudava a chegar ao endereço; as observações ajudavam a formular perguntas que ela não respondia. Na apresentação, um colega disse que minha avó confundia o bairro antigo com o atual. Mostrei a farmácia e o círculo na calçada. Ela não desconhecia a mudança: usava vestígios para orientar a memória e o trajeto. Depois corrigi uma frase minha que dizia entrada aberta pela manhã. Eu só a tinha visto aberta naquele dia. O mapa recebeu uma pergunta no lugar de uma seta: em que horário esse portão estará disponível?