O autocarro deixou-nos numa praça que o folheto apresentava como «porta de entrada para uma aldeia sem pressa». Eu trouxera um caderno para escrever um relato de viagem e essa frase parecia oferecer-me a primeira linha. Ao descer, ouvi uma carrinha apitar junto do mercado. Uma mulher carregava caixas e pedia ao motorista que esperasse. A aldeia começava o dia sem pedir licença ao folheto. Seguimos por uma rua estreita até à oficina de cestaria. O artesão mostrou-nos uma peça antiga, reparada com fibras de tonalidade diferente. Explicou que a mudança de cor não era um defeito a esconder: permitia reconhecer a intervenção. Eu anotava o nome das ferramentas quando a colega perguntou quem comprava os cestos. O artesão falou de vizinhos, visitantes e encomendas que preparava antes de viajar para uma feira. À hora de almoço, o guia conduziu-nos a um miradouro. A paisagem parecia reunir tudo o que o folheto prometera: casas pequenas, uma linha de água e caminhos vazios. Fotografei-a e escrevi «silêncio». Depois reparei num veículo de entregas que ficara fora do enquadramento. A tranquilidade que eu descrevia existia naquele ponto de observação; não resumia a manhã inteira nem o trabalho de quem vivia ali. No regresso, a colega leu o meu caderno e perguntou por que motivo a oficina aparecia como lugar parado no tempo. Mostrei-lhe a descrição da peça antiga. Ela apontou para a nota sobre a feira: «Se ele viaja para vender, talvez a tradição também se desloque.» Não mudara os acontecimentos; mudara a relação entre eles. Acrescentei à descrição do cesto a história da reparação e das encomendas. O relato final começou com o apito da carrinha. Mantive o silêncio do miradouro, mas situei-o na tarde e no lugar em que o sentira. O folheto continuou guardado no caderno, como uma voz com um propósito próprio. A minha viagem não o desmentia por completo. Mostrava o que a sua imagem deixava fora e aquilo que eu precisara de ouvir para escrever para além dela.