Quando o centro cultural encerrou para obras, pediram-me que preparasse uma nota sobre a última reunião. Eu era o secretário da associação e levava para casa a ata, escrita à pressa entre duas votações. Nela, a decisão de transferir as atividades surgia sem resistência. A frase parecia limpa: «A proposta foi aprovada.» Recordava, porém, o modo como Teresa olhara para a janela antes de levantar a mão. Teresa organizava o grupo de leitura. Durante a reunião, explicara que o espaço provisório ficava longe da paragem de autocarro. Disse que alguns participantes teriam dificuldade em chegar. O presidente respondera que o centro precisava de reparar o teto antes das chuvas e que as alternativas disponíveis eram poucas. Quando votou a favor, Teresa acrescentou que queria procurar transporte para os leitores. Eu anotara o voto; deixara cair a condição. No dia seguinte, telefonei-lhe para confirmar a nota. Ela não pediu que o voto fosse alterado. Pediu que a preocupação e a proposta de transporte aparecessem ligadas à decisão. «Aprovar não é esquecer», disse. Li-lhe a nova frase, em que a transferência era aprovada e a associação se comprometia a estudar uma solução de acesso. Teresa corrigiu-me: o compromisso ainda não fora votado. A proposta existia, mas não se tornara decisão coletiva. Voltei à ata. Acrescentei uma nota de esclarecimento, identificada como tal, e separei a deliberação da intervenção de Teresa. Não reescrevi a reunião como se todos tivessem antecipado o problema. Também não apresentei a preocupação como oposição às obras. A coerência que procurava já não era a de uma frase sem rugas; era a de um relato que mantivesse juntos os acontecimentos sem lhes trocar o estatuto. À tarde, vi pela rua a janela do centro coberta por uma tábua. Lembrei-me do olhar de Teresa e pensei que talvez ela estivesse apenas a ver a luz a diminuir. Esse gesto não me autorizava a conhecer o que pensara. Na nota publicada, conservei as palavras que pude confirmar e retirei a interpretação do olhar. A janela ficou no meu caderno, como lembrança do ponto em que escrever melhor exigira dizer menos.