Na tipografia, o meu primeiro trabalho foi rever um catálogo de uma exposição imaginária. O responsável entregou-me as provas e disse que procurasse palavras trocadas, datas mal transcritas e linhas repetidas. Encontrei depressa uma fotografia com a legenda de outra. Assinalei a troca a vermelho, satisfeito por tornar visível um erro que qualquer visitante poderia notar. Mais tarde, li a nota sobre uma escultora. O texto dizia que ela começara a trabalhar pedra depois de abandonar o desenho. Nas imagens anteriores havia, porém, pequenos estudos em papel ao lado de peças talhadas. Perguntei ao editor se a data estava errada. Ele respondeu que a autora do catálogo usara «abandonar» para destacar uma mudança de atividade principal, não para afirmar que deixara de desenhar. A frase podia ser compreendida assim, mas também convidava a uma leitura mais radical. Propus «passou a dedicar-se sobretudo à pedra, mantendo estudos em papel». O editor pediu uma fonte para a segunda parte. Eu mostrei as imagens. Ele lembrou que podiam ter sido preparadas para a montagem e não provar uma prática continuada. A minha correção resolvera uma ambiguidade acrescentando uma afirmação que ainda não podia sustentar. Telefonámos à autora. Ela consultou os registos do ateliê e confirmou a continuidade dos estudos. Reformulou a frase e acrescentou uma indicação do período a que se referia. Quando a nova prova chegou, a alteração parecia pequena: algumas palavras e uma nota. No meu caderno, ocupara uma página inteira. Eu aprendera que uma formulação mais clara pode ser menos fiel se oferecer como certo aquilo que apenas parece plausível. Antes de entregar o catálogo, voltei à fotografia cuja legenda corrigira. A troca era objetiva e não exigira reconstruir uma intenção. Na nota da escultora, o problema envolvera sentido, documentação e alcance temporal. Dois riscos diferentes tinham cabido debaixo do mesmo lápis vermelho. O responsável perguntou-me quantos erros encontrara. Disse-lhe o número e acrescentei que nem todas as minhas primeiras correções tinham sido melhores do que a fonte. Ele sorriu e deixou-me ficar com uma prova. Guardei-a junto do caderno, para me lembrar de verificar também aquilo que a minha intervenção punha no papel.