A casa da esquina perdera o número quando pintaram a fachada. Durante semanas, o carteiro deixou as cartas no café, onde o proprietário passava todas as manhãs. Eu via esse desvio da janela e chamava-lhe uma pequena desordem sem importância. O meu pai, que guardava envelopes antigos numa gaveta, dizia que uma morada precisava de ser legível mesmo para quem não conhecesse as pessoas. Eu respondia que, naquela rua, o café chegava. No verão, o café fechou durante alguns dias. Uma carta regressou ao remetente e o proprietário da casa apareceu à nossa porta para pedir ajuda. Trazia nas mãos a cópia de uma notificação que chegara tarde. O meu pai procurou o envelope na gaveta para lhe mostrar como o endereço fora escrito noutra ocasião. Enquanto os dois comparavam linhas, reparei que o número antigo aparecia num desenho da fachada feito por mim em criança. Ofereci o desenho com entusiasmo. Imaginava que a imagem restituiria à casa a identidade perdida. O proprietário agradeceu, mas perguntou se a porta que eu desenhara era a mesma. Tinham-na deslocado numa obra posterior. A memória da fachada conservava um número, mas não dizia onde o colocar agora. Senti a irritação breve de quem traz uma solução e recebe uma pergunta. Fomos à rua. O meu pai levou o envelope; eu, o desenho. O proprietário abriu a porta nova e apontou para o lugar onde a antiga estivera. Combinámos as indicações, sem fingir que os dois papéis mostravam a casa no mesmo momento. Depois ele procurou a documentação da obra e confirmou a identificação da entrada atual. Só então comprou uma placa. Não era a imagem da infância que faltava à parede; era um sinal que pudesse orientar alguém sem a nossa conversa. Quando o café reabriu, o carteiro já entregava as cartas à porta certa. Guardei o desenho, mas retirei-lhe o título «A casa como era» e escrevi «A casa que eu desenhei». A alteração parecia reduzir o seu alcance. Para mim, dava-lhe um lugar mais exato. O envelope do meu pai voltou à gaveta, com uma nota sobre a data em que fora consultado. Meses depois, passei pela esquina com um amigo que desconhecia a história. Ele leu o número e seguiu caminho. Tive vontade de lhe contar o café, a carta e os papéis. Fiquei calado por um instante, satisfeito com o que a placa conseguia fazer sem nós. A rua continuava cheia de memórias; a morada deixara de depender delas para ser encontrada.