Uma associação fictícia recebeu dois relatórios sobre o consumo de água de um edifício. O relatório técnico comparava o total gasto antes e depois de instalar dispositivos de redução do caudal. O relatório de uma comissão de moradores descrevia dificuldades sentidas nos horários de maior utilização. A associação queria decidir se mantinha os dispositivos. Na primeira reunião, alguém sugeriu escolher o relatório mais objetivo e arquivar o outro. O documento técnico indicava uma diminuição do consumo, mas anotava que alguns apartamentos tinham estado vazios durante parte do segundo período. A equipa não podia atribuir a diferença inteira à instalação. Propunha comparar períodos com ocupação semelhante e acompanhar o funcionamento dos aparelhos. A existência de números não dispensava uma hipótese de relação entre intervenção e resultado; tornava necessário explicitar como essa relação seria avaliada. A comissão recolhera comentários numa reunião aberta. Vários moradores disseram demorar mais a encher recipientes, sobretudo quando outros utilizavam água. O relatório não distinguia apartamentos nem horários com precisão suficiente para localizar a dificuldade. Também não incluía quem não comparecera. Isso limitava a representação do conjunto, mas não fazia desaparecer a experiência relatada. O documento oferecia questões para observar, não uma medida do efeito em cada casa. Ao confrontar as fontes, a associação separou três dimensões: consumo total, funcionamento em condições concretas e aceitabilidade da mudança. Uma redução do consumo poderia coexistir com dificuldades concentradas em alguns períodos. Da mesma forma, uma dificuldade sentida não demonstrava que os dispositivos fossem a sua causa. O encontro das duas fontes não produzia contradição automática nem confirmação recíproca. Uma moradora propôs retirar os aparelhos durante uma semana para comparar. O técnico advertiu que uma semana com ocupação diferente poderia repetir o problema do primeiro balanço. A comissão sugeriu então registar condições, horários e ocorrências num período acordado, convidando também quem não estivera na reunião. O plano procurava transformar relatos em perguntas verificáveis, sem reduzir a avaliação a um único total. O comentário final defendeu que a decisão precisava de critérios conhecidos: poupança, funcionamento e impacto no uso. Esses critérios não tinham necessariamente o mesmo peso para cada morador, e caberia à associação discutir a prioridade entre eles. Os relatórios podiam informar a discussão, mas não escolher por ela. Chamar «objetivo» a um documento para dispensar o outro apagaria tanto os limites dos números como a informação das experiências. A comparação mais rigorosa começava por reconhecer que a mesma água estava a ser interrogada de maneiras diferentes.