Eu tinha prometido organizar o arquivo de uma associação antes da comemoração do seu aniversário. As caixas continham atas, fotografias e folhas soltas. Numa pasta encontrei a lista de uma campanha de recolha de livros: nomes de doadores, quantidades e uma anotação sobre transporte. Preparei um painel que apresentava a campanha como iniciativa de três dirigentes, cujas assinaturas apareciam no fim do documento. Quando mostrei a maquete, Emília ficou algum tempo diante da lista. Era a pessoa que abrira o armazém durante a campanha, anos antes. Perguntou onde estavam os voluntários que tinham separado e levado os livros. Respondi que não constavam da folha. Ela apontou para a anotação «entrega feita» e disse que essa frase lhe cabia nas costas. Não sorriu ao dizê-lo. Eu pensei numa metáfora bonita; ela falava de caixas transportadas por escadas. Emília contou os dias em que recebera livros molhados e procurara espaço para os secar. Lembrava-se de duas vizinhas e de um rapaz que trazia um carrinho. Pedi os nomes para preencher o painel. Ela hesitou: sabia o nome de uma vizinha, mas confundia o do rapaz com o de um irmão. A ausência no arquivo não podia ser corrigida inventando uma certeza na recordação. Anotei a descrição do trabalho e a dúvida sobre a identificação. No arquivo encontrei uma fotografia com caixas junto à porta e várias pessoas parcialmente visíveis. Uma delas podia ser o rapaz, mas o rosto estava cortado. O entusiasmo voltou a oferecer-me um atalho: bastava ligar a imagem à memória. Emília recusou confirmar. Reconhecia o carrinho, não a pessoa. A sua cautela desfez a ideia de que bastaria opor a voz viva ao papel frio para recuperar o passado. O painel final distinguiu a assinatura dos dirigentes, o trabalho recordado por Emília e as perguntas que permaneciam. Acrescentei um convite para que antigos participantes contribuíssem com informações, explicando que seriam confrontadas com os materiais disponíveis. Não anunciei a restituição de uma história completa. Também não conservei a versão em que a falta de nomes tornava o trabalho inexistente. Na festa, Emília leu a sua frase transcrita e pediu uma alteração. Eu escrevera «ela suportava o peso da campanha». Preferia que se dissesse quem carregara caixas e o que fizera com os livros. A metáfora, que me parecera reparadora, escondia de novo as ações. Corrigi a frase. O arquivo continuava a ter lacunas, mas eu já não tentava tapá-las com uma prosa mais redonda do que a memória.