Uma rede fictícia de bibliotecas decidiu avaliar um programa de leitura pelo número de empréstimos. A escolha tinha vantagens: o dado já era registado, podia ser comparado entre meses e não exigia perguntar a cada leitor o que lera. No primeiro balanço, os empréstimos aumentaram. A equipa celebrou o resultado, mas uma bibliotecária perguntou se o objetivo do programa era emprestar mais exemplares ou favorecer uma relação continuada com a leitura. A pergunta não retirava valor ao indicador. Um livro emprestado é uma oportunidade de leitura e a circulação pode mostrar utilização do serviço. Contudo, não permite saber se o exemplar foi lido, abandonado ou levado para outra pessoa. A mesma contagem pode resultar de experiências diferentes. Quando um objetivo amplo é representado por uma medida disponível, existe o risco de confundir facilidade de observação com pertinência suficiente. O coordenador respondeu que nenhum indicador mostraria sozinho toda a relação de alguém com os livros. Se a avaliação esperasse uma medida completa, ficaria paralisada. Esta objeção limita uma crítica demasiado exigente: a incompletude não torna cada medida inútil. Obriga a indicar o que ela representa e a confrontá-la com outras pistas, escolhidas em função do objetivo e do esforço que a recolha exige. A equipa considerou acompanhar devoluções, recolher comentários voluntários e observar a continuidade de participação em pequenos grupos. Cada opção tinha limites. Devolver um livro não prova a leitura; um comentário pode representar apenas quem deseja falar; permanecer num grupo pode depender do horário. Acrescentar medidas não produz automaticamente conhecimento melhor. É preciso esclarecer a contribuição de cada uma e evitar uma soma que esconda as diferenças. Havia ainda um efeito possível da avaliação sobre o próprio programa. Se o sucesso fosse definido apenas por empréstimos, a equipa poderia privilegiar campanhas que multiplicassem saídas rápidas, embora o objetivo incluísse tempo de leitura e conversa. A medida deixaria de ser apenas observação e passaria a orientar escolhas. O texto não afirma que isso já aconteceu; apresenta um risco que a equipa deve considerar. O balanço final manteve a contagem e escreveu, junto dela, a pergunta a que respondia. Acrescentou uma pequena recolha de experiências, identificando o seu caráter voluntário. A conclusão referiu maior circulação, sem declarar demonstrado o fortalecimento do hábito de leitura. A avaliação ganhou precisão ao conservar a distância entre o sinal disponível e a ambição do programa. Essa distância não era um fracasso do relatório: era uma condição para decidir o que valia a pena investigar a seguir.