A mala apareceu na sala de teatro sem etiqueta. Era castanha, com um fecho gasto, e ficou debaixo da mesa dos adereços. Quando a professora perguntou de quem era, ninguém respondeu. Diogo sugeriu usá-la na peça: parecia ter viajado durante muitos anos. Inês reparou que, no interior, havia uma lista de objetos para uma exposição. Não abriu os pequenos embrulhos que encontrou. Entregou a lista à professora e propôs perguntar à biblioteca, que estava a preparar uma mostra de objetos antigos. Diogo receou perder o adereço antes do ensaio. A bibliotecária confirmou que a mala pertencia à mostra, mas explicou que era uma reprodução recente. O aspeto envelhecido fora criado para os visitantes imaginarem uma viagem. A etiqueta tinha-se soltado durante o transporte. A mala podia ser emprestada para o ensaio, desde que regressasse intacta à exposição nesse dia. Diogo voltou a olhar para o fecho gasto. A sua primeira história parecia-lhe agora menos segura: o aspeto de um objeto não contava, por si, a sua idade. No ensaio, usou a mala para representar um viajante, sem dizer aos colegas que ela fosse uma peça antiga. Inês voltou a colocar a etiqueta. O objeto manteve a capacidade de sugerir histórias, mas ganhou uma informação que impedia confundir aparência com origem.