Eu queria que a apresentação do nosso grupo começasse com uma frase forte. «O pátio deixou de ser um lugar de passagem», escrevi. Tínhamos visto colegas sentados junto à janela da biblioteca durante dois intervalos. Parecia-me suficiente para anunciar uma mudança no modo como a escola usava o espaço. No ensaio, a Carolina pediu-me que mostrasse as notas. Nelas, tínhamos registado o lugar, a hora e algumas ações: conversar, ler, esperar por um colega. Não observáramos o resto do pátio nem outros dias. Eu respondi que a frase era apenas uma maneira de atrair a atenção. Ela perguntou se os ouvintes perceberiam esse limite. Reescrevemos a abertura: «Perto da janela, vimos mais do que passagens.» A nova frase ainda despertava curiosidade, mas localizava a observação. Carolina propôs acrescentar que os registos cobriam dois intervalos. Eu receei que a ressalva enfraquecesse o trabalho; ao ouvi-la no ensaio, percebi que também explicava o que tínhamos feito. No dia da apresentação, um colega perguntou se o mesmo acontecia no lado do campo. Respondi que não o sabíamos. Convidei-o a observar esse lugar connosco noutra semana. A frase inicial já não cabia na nossa conclusão, mas a pergunta dele cabia no próximo trabalho. Ao fechar o caderno, senti que tínhamos ganho uma tarefa, em vez de perdido uma resposta.