Entrada de diário ficcional. Quinta-feira. Hoje mudaram a nossa sala para o piso de cima. Na primeira aula, escrevi que a nova sala era pior: a janela dava para um muro e eu deixara de ver o jardim. Não tinha ainda experimentado trabalhar lá durante uma manhã inteira. A frase dizia muito sobre o que eu perdera e pouco sobre o funcionamento da sala. Depois do intervalo, reparei que ouvia melhor os colegas do fundo. Na sala antiga, o ruído do portão misturava-se com algumas respostas. Não fiz uma medição do som, mas comparei dois momentos de escuta. A Inês disse que sentia falta da luz da manhã; eu não podia decidir por ela se ouvir melhor compensava essa perda. Ao almoço, voltei à primeira frase. Não a apaguei: queria guardar como tinha recebido a mudança. Acrescentei uma nota com o momento em que a escrevera e descrevi a experiência seguinte. Se alguém lesse apenas a abertura, pensaria que a minha avaliação permanecera igual durante o dia. Agora, à noite, a janela ainda me parece pouco interessante. Isso não apaga o que consegui ouvir. Amanhã quero observar a luz noutra hora e perguntar aos colegas que dificuldades tiveram. Talvez consiga comparar melhor os espaços. Este diário não é um relatório sobre as salas da escola; é o registo de uma pessoa que começa a separar o desagrado inicial das razões que pode sustentar.