Memória ficcional. Quando regressei ao cais onde passeava com o meu avô, procurei o banco verde. Na minha lembrança, ficava tão perto da água que os nossos pés quase tocavam as ondas. Encontrei-o atrás de um pequeno muro, numa posição que não correspondia à imagem que trouxera. Uma fotografia guardada pela minha mãe mostrava o mesmo banco e o muro, muitos anos antes. Reconheci o casaco do avô, mas a imagem não abrangia todo o cais. Aproximei-a da memória como quem aproxima duas peças sem saber se pertencem ao mesmo recorte. Talvez eu tivesse misturado o banco com outro lugar onde costumávamos sentar-nos. Perguntei à minha mãe se o banco fora deslocado. Ela lembrava-se de uma obra no passeio, mas não da mudança do banco. Não podia transformar essa lembrança numa confirmação. Ao escrever o episódio, conservei o que vira na fotografia e identifiquei a proximidade das ondas como parte da recordação, que não conseguia verificar. O meu avô já não podia responder à pergunta. Deixei a dúvida no texto. O passeio continuava a ser importante, mesmo sem a certeza da posição exata dos nossos pés. Percebi que escrever memórias não exigia fingir uma precisão que o tempo não me dera. O banco verde passou a guardar duas coisas: uma imagem de infância e a pergunta que essa imagem, ao ser relida, tinha aberto.