Na manhã em que a associação recolheu objetos para a exposição do bairro, Leonor levou uma chapa enferrujada. Tinha encontrado o nome «Esperança» debaixo de várias camadas de tinta. O avô dissera-lhe que aquela chapa pertencera ao primeiro barco da família. Leonor escreveu isso no cartão e desenhou uma pequena âncora. Gostava de imaginar que trouxera uma prova, e não apenas uma recordação. No armazém, o antigo carpinteiro reconheceu a peça, mas contou outra história: o barco recebera aquele nome depois de uma reparação. Antes chamava-se «Maré». A tia confirmou que a chapa fora feita nessa altura; lembrava-se de ter segurado a lata de tinta. Leonor olhou para o cartão. Nenhuma das duas pessoas negava a ligação à família, mas a palavra «primeiro» começava a pesar. «Bela historiadora, trouxe logo o capítulo final», murmurou ela, sorrindo para a âncora que desenhara. O carpinteiro julgou que estava zangada e ofereceu-se para arranjar uma fotografia antiga. Leonor aceitou. Não queria substituir a memória do avô pela memória do carpinteiro como quem muda uma etiqueta numa prateleira. Queria perceber a diferença entre a construção do barco e a mudança do nome. À tarde, colocou a chapa junto de uma folha com as duas versões e escreveu a pergunta que ainda faltava esclarecer. O cartão novo identificava o objeto como parte de um barco da família, renomeado após uma reparação. A data ficou em branco. Quando o avô chegou, Leonor pediu-lhe que contasse outra vez a história, desta vez começando antes da tinta. A chapa perdera a certeza que ela lhe atribuíra; ganhara um passado mais comprido.