Rui chegou cedo ao ensaio e encontrou uma cadeira a tapar a entrada do palco. Arrastou-a para o canto e abriu a porta de par em par. Na peça, a sua personagem devia receber uma vizinha que vinha pedir ajuda. Rui tinha decorado a fala de boas-vindas e julgava que a porta aberta já explicava a disponibilidade do anfitrião. Marta, que representava a vizinha, entrou sem hesitar. A encenadora interrompeu a cena: «Se ela encontra passagem livre, que dificuldade precisa de vencer?» Rui apontou para o texto. A vizinha tinha viajado durante a noite, mas nenhuma fala dizia que o anfitrião a recusava. A encenadora concordou. Não procurava uma recusa; procurava um gesto que tornasse visível a decisão de acolher. No segundo ensaio, Rui deixou a cadeira perto da passagem e sentou-se com um livro. Enquanto Marta batia, continuou a ler; depois fechou o livro, afastou a cadeira e levantou-se. Marta esperou pelo gesto antes de entrar. A mesma fala soou menos automática. Rui percebeu que uma ação concluída podia transformar o sentido de uma atividade que estava em curso. No fim, o colega que observara as duas versões preferiu a primeira: parecia-lhe mais hospitaleira. Marta preferiu a segunda: sentira que a personagem a escutava e lhe cedia espaço. A encenadora pediu que registassem ambas as interpretações. A cadeira não passara a ser um sinal fixo de hostilidade. O seu efeito dependia do momento e do movimento. Rui levou o livro para casa sem marcar a página onde o fechara. No caderno, anotou o que cada gesto fazia à cena. Já não perguntava apenas se a entrada estava aberta. Perguntava quando, por quem e à custa de que interrupção ela se abria.