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O caderno do revisor

11-ano · relato-reflexivo

· PDF

Na tipografia, o meu primeiro trabalho foi rever um catálogo de uma exposição imaginária. O responsável entregou-me as provas e disse que procurasse palavras trocadas, datas mal transcritas e linhas repetidas. Encontrei depressa uma fotografia com a legenda de outra. Assinalei a troca a vermelho, satisfeito por tornar visível um erro que qualquer visitante poderia notar.

Mais tarde, li a nota sobre uma escultora. O texto dizia que ela começara a trabalhar pedra depois de abandonar o desenho. Nas imagens anteriores havia, porém, pequenos estudos em papel ao lado de peças talhadas. Perguntei ao editor se a data estava errada. Ele respondeu que a autora do catálogo usara «abandonar» para destacar uma mudança de atividade principal, não para afirmar que deixara de desenhar.

A frase podia ser compreendida assim, mas também convidava a uma leitura mais radical. Propus «passou a dedicar-se sobretudo à pedra, mantendo estudos em papel». O editor pediu uma fonte para a segunda parte. Eu mostrei as imagens. Ele lembrou que podiam ter sido preparadas para a montagem e não provar uma prática continuada. A minha correção resolvera uma ambiguidade acrescentando uma afirmação que ainda não podia sustentar.

Telefonámos à autora. Ela consultou os registos do ateliê e confirmou a continuidade dos estudos. Reformulou a frase e acrescentou uma indicação do período a que se referia. Quando a nova prova chegou, a alteração parecia pequena: algumas palavras e uma nota. No meu caderno, ocupara uma página inteira. Eu aprendera que uma formulação mais clara pode ser menos fiel se oferecer como certo aquilo que apenas parece plausível.

Antes de entregar o catálogo, voltei à fotografia cuja legenda corrigira. A troca era objetiva e não exigira reconstruir uma intenção. Na nota da escultora, o problema envolvera sentido, documentação e alcance temporal. Dois riscos diferentes tinham cabido debaixo do mesmo lápis vermelho.

O responsável perguntou-me quantos erros encontrara. Disse-lhe o número e acrescentei que nem todas as minhas primeiras correções tinham sido melhores do que a fonte. Ele sorriu e deixou-me ficar com uma prova. Guardei-a junto do caderno, para me lembrar de verificar também aquilo que a minha intervenção punha no papel.

provas
Versões impressas preparatórias para revisão.
alcance temporal
Período de tempo a que uma afirmação se aplica.
  1. Escolhe uma opção.

    Que ambiguidade levou o narrador a questionar «abandonar o desenho»?

    • A frase confundia o material da pedra com o suporte usado nos estudos.
    • Essa expressão podia indicar mudança de prioridade ou interrupção da prática.
    • A palavra podia referir a troca de legendas entre duas fotografias do catálogo.
  2. Escolhe uma opção.

    Por que as imagens não bastavam para sustentar a primeira correção proposta?

    • A sua presença podia resultar da montagem, sem provar continuidade de trabalho.
    • A ausência de datas nos desenhos demonstrava que não pertenciam à escultora.
    • O editor tinha confirmado que os estudos eram anteriores ao início da escultura.
  3. Escolhe uma opção.

    Como o narrador distingue a troca de legenda da frase sobre o desenho?

    • Ambas ficam resolvidas ao aceitar a intenção que o editor atribui à autora.
    • Uma exige corrigir correspondência; a outra, verificar sentido e documentação.
    • A legenda envolve interpretação temporal e a frase apenas transcrição de palavras.
  4. Escolhe uma opção.

    Que função tem a página inteira do caderno face à pequena alteração da prova?

    • Mostra o trabalho de verificação que a mudança final deixa pouco visível.
    • Indica que a extensão de uma correção determina a quantidade de erros resolvidos.
    • Revela que a autora transferiu para o revisor a responsabilidade pelo catálogo.
  5. Escolhe uma opção.

    Que critério o narrador passa a aplicar às suas intervenções?

    • Preferir alterações extensas que tornem o erro mais visível.
    • Verificar também as afirmações que a correção introduz.
    • Evitar pedir documentos quando a formulação parece clara.
  6. Indica se a afirmação é verdadeira ou falsa.

    Os registos do ateliê confirmam a continuidade dos estudos em papel, mas essa conclusão não estava sustentada apenas pelas imagens.

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